BÍBLIA E DEFICIÊNCIA

 

INSTITUTO ABRAÇO MS

O texto começa com uma informação muito importante do ponto de vista da relação bíblia e deficiência: “Esse princípio [a proibição de Levítico 21,18], porém, não volta em nenhuma outra passagem — quer do Primeiro, quer do Segundo Testamento”; o que é fundamental para evitar qualquer tentativa de instrumentalização para além daquelas que já foram feitas pela tradição Romana, lembrado pelo autor no direito Canônico. Do ponto de vista do Primeiro Testamento, Prado lembra alguns fragmentos que evidenciam a exigência de respeito à dignidade da pessoa com qualquer deficiência, como Lv 19,14 e Dt 27,18. Embora a intenção de Prado seja “salvar os textos bíblicos”, sabemos muito bem que uma distinção tão radical em Letítico 19 e 21 se dá pelos diversos locais de fala presentes nos textos sagrados. Ainda comentando o Primeiro Testamento, Prado tenta mostrar existe dois tipos de deficiência: uma real e uma simbólica; isso porque ele tenta mostrar que qualquer negatividade da deficiência é mera metáfora. Não obstante, o uso de referências às deficiências no Primeiro Testamento, sendo simbólico ou real, como algo negativo ou dessacralizado é uma realidade. A “cegueira” ou “surdez” como metáfora para certa “teimosia” ou afastamento humana frente à vontade divina não é ocasional nem ameniza a situação das pessoas com deficiência. Ainda que “simbólica”, isto não deveria ser desculpa para não descortinar preconceitos existentes nas falas do Primeiro Testamento e questionar as próprias escrituras.

 

Assusta-me, ainda mais, o modo como Prado faz menção às “curas” encontradas no Segundo Testamento, como referencias positivas à deficiência. É mais do que certa a figura de Jesus pintada nos Evangelhos: a experiência do acolhimento, inclusão e sensibilidade fraterna. Parece que é consenso entre as comunidades que escreveram os Evangelhos que Jesus foi muito sensível à realidade dos deficientes: cegos, surdos, coxos. Contudo, a referência às curas, dependendo do modo como se interpreta os Evangelhos, cria-se a ideia de que Jesus quer resolver “os problemas” de uma deficiência, mantendo a mesma ideia judaica de equivalência entre deficiência e maldição. O que não é verdade, não é essa a dinâmica de Jesus. Prado, parece ter mais a preocupação de enumerar as curas do que descrevê-la dentro da dinâmica de acolhimento de Jesus. Mais do que uma “cura”, como restabelecimento da normalidade perdida, a cura em Jesus deve ser lida dentro de um processo de inclusão. Ao olharmos para os fragmentos que narram as curas, há um padrão na narrativa: compaixão e aproximação; restabelecimento da dignidade humana; e quebra do paradigma judaico. A primeira atitude de Jesus é de compaixão e aproximação. Compaixão não é dó, mas é sentir na pele o preconceito que a sociedade construiu em cima da pessoa. O aproximar de um deficiente seria um ato de escândalo e quebra do preconceito social. O toque e suas palavras junto ao deficiente restabelecem neles sua auto-estima e recupera sua condição de Filho de Deus. Essa é a verdadeira “cura” de Jesus, fazer o deficiente perceber que ele não é menos amado por Deus, não há débito para com Deus. Ele não é um castigo ou uma maldição. A felicidade é algo existente e possível em vida para eles, basta que eles assumam essa graça (“sua fé te curou”). A consequência à cura, fato este mais valorizado nos evangelhos, é um ato público em que os autores querem representar como combater o preconceito religioso da sociedade. O restabelecimento da saúde, ainda que possa ser criticado – e com razão – não deve ser o ponto mais alto da cura de Jesus, pois Jesus o faz sabendo que os corações duros dos sacerdotes de seu tempo jamais entenderiam que o mais importante já havia sido resgatado: a pessoa.

 

Assim termino esse texto dizendo que Prado faz uma boa abordagem entre bíblia e deficiência, quando tenta trazer aquilo que é positivo das sagradas escrituras. O que não é errado, mas importante. Porém poderia ter avançado mais quando não toca no preconceito que existe na tradição judaica sobre o deficiente e que essa passa para o cristianismo quando o ato de “eliminar” a deficiência se torna o ponto mais alto, deixando de lado a própria dignidade da pessoa humana. É necessário fazer a critica à bíblia. Ela não é apenas um livro que mostra que Deus ama o deficiente, mas é um livro que denuncia a ignorância histórica e religiosa sobre a deficiência. A bíblia mostra que nunca demos conta de lidar com o deficiência e que apelamos para Deus para que nos “livre desse problema”. Pior que não ver a denúncia bíblica, é mascará-a em forma de milagre.

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